quinta-feira, 6 de maio de 2010
Complexo de vira-lata
Conhecem Nélson Rodrigues? Um gênio. Possui frases lapidares para pensar o Brasil, o mundo, o cotidiano.
Quase sempre, quando leio alguns e-mails dos professores e quando escuto algumas falas nossas, duas frases dele me vêem a mente, primeira: “o brasileiro é um narcisista às avessas, cospe na própria imagem.” A segunda é a tese dele sobre o complexo de vira-lata. Para ele só perdemos esse complexo, quando nos tornamos campeões mundiais em 1958. Sim, Nélson como eu amava o futebol. E fazia ode aos artistas do campo. Naquela época, eles ganhavam menos, mas eram mais fabulosos e espetaculares. Faziam coisas e provocavam emoções que não tem preço.
Desde menino é esse encanto e essa paixão que nos conduz aos gramados, a saber, o desejo delirante de fazer coisas que todos fazem- driblar, marcar gol, correr, suar, ter seu nome ovacionado pela torcida- contudo o que ainda se deseja é mais e é outra coisa que esta para alem disso e não tem preço. Ilusão? Utopia? Fantasia? Sonho de criança? Realização material? Juro que não sei o nome. Mas dialoga muito com um preenchimento interno, uma sensação de satisfação plena, algo como se encontrar naquilo que se faz. Esse encontro mágico, que sempre foi a marca de todas as profissões, segundo Marx o capitalismo tirou. Antes o artesão em sua produção laboral, ao termino do seu trabalho, via-se e reconhecia-se naquilo que houvera produzido. E esta produção tinha a sua marca. Seu labor tinha a assinatura dele. Com as corporações de oficio, a divisão de trabalho, o mesmo artesão que produzia uma carroça inteira, agora fazia apenas uma parte. E nesta parte produzida, ele não via mais a si mesmo. Ele perdeu-se. Houve um aumento da produção, contudo, ele perdeu a sua imagem, sua identidade. O funcionário da Fiat que coloca portas traseiras direitas, mecanicamente, por uma jornada semanal de seis horas, por anos consecutivos, não tem a impressão de ter feito nenhum carro ao se aposentar. Esse é um esvaziamento do mundo do trabalho que alcança o mundo do ser, pois nos realizamos e nos fazemos no trabalho. E se esse trabalho é esvaziado de sentido e de plenitude, se nesse trabalho, não nos vemos e nos construímos, há uma desvalia. Não do patrão, dos colegas, mas, primordialmente, nossa. Nós vamos perdendo a alegria, a satisfação. Nós vamos nos deluzindo até não sermos, ou nos tornarmos a negação do que somos.
Os jogadores de futebol, sem nenhuma escolaridade, sabem manter a chama interna acesa. E ganham fortunas apenas por isso. Assim como músicos, atores. O professor é um tanto de todas essas coisas, mas ainda não perdeu o complexo de vira lata. Ele acorda pela manha e espera que os alunos, os pais, o governo o valorize. Creio que isso só acontecerá depois que nos valorizarmos. E se valorizar tem tudo a ver com ganhar 300 mil reais por semana e nada a ver com isso. A valorização faz parte de um respeito por si mesmo que não é dado e nem tirado por ninguém: aluno, pais, governo. É um modus operanti interno.
Isso tudo é para dizer que não sabemos o peso que temos. Um professor nos contava em uma banca de mestrado, que trabalhou na universidade federal do Rio de Janeiro, hoje ele é professor da UEMG. La, ele trabalhou com Ivo Pitangui e no cartão do maior cirurgião do mundo, estava escrito em destaque: PROFESSOR. Juízes, desembargadores, médicos fazem a mesma coisa. Todos fazem questão de se mostrarem professores e de serem tratados como tal. Até o nada republicano Anastasia gosta de ser chamado de professor entre os seus pares. Ele foi paraninfo da turma de direito da UFMG de 2008-9 (não me recordo mais) e não referiram a ele como vice-governador hora alguma, apenas como professor.
Ser professor é um status elevado, um diferencial significativo no mundo do trabalho. Há um respeito pelo fato de ser professor e ele não é maior, porque temos complexo de vira lata. De forma que o único lugar que paga mal aos professores é o Estado de Minas Gerais. E é igualmente na rede publica estadual que se encontra, infelizmente, toda má sorte de profissionais. Inclusive porque qualquer um pode lecionar. Uma diretora me pedia para que se eu soubesse de aulas de Filosofia e Sociologia contasse para a filha dela que faz direito. Eu não posso advogar. Outro dia um fonoaudiólogo estava dando aula de biologia em nossa escola- João Paulo I. Minhas amigas mesmo conhecendo o aparelho fonador, não podem clinicar. Mas dar aula no Estado, qualquer um pode. E isso nos desvaloriza muito. De forma que as prefeituras já pagam melhor. A rede privada paga melhor. O governo federal paga melhor. Precisamos levantar a cabeça e termos orgulho do que fazemos. Devemos parar de cuspir na nossa própria imagem. A Vanessa Guimarães Pinto e a Renata Vilhena já fazem isso por nós.
Bjs em todos e a greve permanece. Porque em Minas estamos recuperando o orgulho de sermos educadores.
Kélsen André.
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